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14set 2015

Relato de parto: Sofri Violência Obstétrica

Post por às em Filhos, Parto, Pré-parto

Passou pouco mais de um ano para que eu conseguisse de fato, escrever meu relato de parto para vocês. Isso porque durante meu trabalho de parto, sofri violência obstétrica e não consegui o meu tão sonhado parto normal. Só sei que tentei. Fiz de tudo para que saísse conforme o desejado e esperado. Mas não foi. Contudo, senti com prazer cada contração, cada sensação que me era oferecida nesse processo. Vivi intensamente. Sinto, mesmo que minha filha não tenha nascido via vaginal, que a pari através de cada contração, que cada uma delas me tornou uma pessoa muito mais forte, conhecedora das forças do meu próprio corpo, da natureza, da força da vida.

Cheguei a oito cm de dilatação. Mas conforme a equipe que me acompanhou no dia do meu parto, a Lorena teve que vir ao mundo via cesárea, pois ela encontrava-se já em sofrimento. Na realidade eles não me explicaram direito o que aconteceu, também me encontrava tão fragilizada que não ousei questionar mais nada. Só queria descansar, entender os motivos de ter passado por tudo o que vivenciei. Queria compreender toda aquela experiência. Mesmo que minha filha tivesse nascido dessa forma, estava feliz por ter sentido cada contração, por ter me aproximado mais do mistério da vida. Me sentia forte, mesmo que um pouco fragilizada. A minha fragilidade não era mais comigo, mas contra um sistema. Tinha me superado, alcançado um novo degrau; porém, com relação ao sistema do qual todas estamos inseridas ainda era muito frágil. Vou explicar melhor para que vocês possam entender.

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Sempre tive muito medo de parto normal, da dor que ele poderia me proporcionar, talvez um sofrimento desnecessário, e eu acreditava até então; que nunca iria querer passar por isso. Cresci ouvindo muitas mulheres ao meu redor falando das dores horríveis do trabalho de parto e de como nós mulheres estávamos fadadas ao sofrimento, muito mais do que os homens. Afinal de contas os homens não precisam sentir as dores de parto e nem ficam “grávidos”.

Todas elas me diziam: “sorte a deles, sorte a deles”. Com todas essas referências negativas de parto normal, é lógico que tinha bastante medo. O meu primogênito nasceu via cesárea. Quando amigas falavam de trabalho de parto, contrações, na verdade fui percebendo que nem ao menos sabia o que era isso. Mesmo sendo mãe, não sabia o que eram essas tais contrações. Comecei a questionar que tinha medo de algo que me era desconhecido, que não tinha   experiência pessoal; e que na verdade tinha medo pela experiência dos outros, que não era a minha, mas a de outras pessoas. Queria ter a minha própria experiência.

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Quando me descobri grávida do segundo filho, senti os mesmos medos. Mas desta vez, consegui vencê-los, pois busquei muita informação de qualidade, participei de rodas de gestantes, pratiquei yoga, meditação, assisti ao filme: O renascimento do parto (recomendo a todas as mulheres que assistam), nesse filme muitos mitos do parto são totalmente desmistificados e o que ocorre no sistema obstétrico atual é revelado. Tudo isso me auxiliou demais para me empoderar e me fazer rever todos os meus “pré” conceitos! Comecei a perceber que cada mulher tinha uma experiência diferente no parto normal, e que ele poderia ser sim prazeroso, transformador e avassalador de uma maneira extremamente positiva.

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Descobri que estávamos grávidos no dia 30 de Dezembro de 2013.

Entendi por fim, que isso não era um castigo para as mulheres, mas sim uma dádiva da vida, algo sagrado. Decidi que queria me enfrentar, que gostaria de saber o que era um parto normal, e assim lutei com todas as minhas forças para que ele de fato se concretizasse. Quando cheguei nas 40 semanas de gestação, Lorena ainda não dava sinais de que queria nascer. Estava com aquela ansiedade natural do final da gestação, mas sabia que poderia esperar até as 42 semanas, ou até mais; desde que claro tomando as medidas necessárias, pois já tinha me informado  a respeito. Era preciso ir acompanhando o coraçãozinho dela, entre outros cuidados. A pressão de amigos e familiares para que eu fizesse uma cesárea já era imensa.

Eis que em uma virada de lua crescente, com 42 semanas, quase 43, começo a sentir leves contrações no dia 02 de Setembro de 2014, exatamente à meia-noite.  Nesse período fui três vezes na maternidade. A equipe médica queria me internar para me fazer cesárea ou uma outra opção seria me dar ocitocina para acelerar o andamento do trabalho de parto. Não queria nenhuma das opções. Estava com muita informação para saber o que poderia ser feito e o que poderia ser recusado. Sabia que a cesárea não era necessária até então, porque não se tinha nenhum motivo para tal e nem para intervenções desnecessárias. O médico que me atendeu ficou muito bravo de encontrar uma mulher cheia de informações e ficou muito chateado de eu não fazer o que ele queria que eu fizesse! Duas alternativas sem nenhum respaldo científico, apenas para consentir com o que ele me dizia: Não, não muito obrigada!

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Voltei para casa. Meu trabalho de parto foi todo em casa, foi longo, mas foi muito prazeroso sim! Fiquei na tranquilidade do meu lar, com o apoio, segurança e amor da minha família, tomando um chazinho de camomila, a luz de velas, me movimentando da forma como bem queria e sentia vontade. Na segunda vez que fui para  a maternidade, porque achei que o nascimento já estava próximo, isso eram 23h:00m do dia 02, mas que nada estava ainda sem dilatação mas com fortes contrações, mas ainda todas bem “controláveis”. Neste momento o médico mais uma vez queria me internar, para me dar ocitocina, mesmo sabendo que eu não era favorável ao método, pois sabia que a minha dor seria triplicada e não tinham motivos para isso. Ele ficou mais bravo comigo. Eu disse a ele que iria mais uma vez para casa. Ele ficou muito mais bravo ainda. Me disse que era para assinar um termo, me responsabilizando por tal ato. Assim o fiz.

Mas que coisa viu?! Eu só queria ser respeitada nas minhas decisões. Eles em nenhum momento se mostraram favoráveis a respeitar o que havia decidido, a respeitar as minhas informações e decisões. Voltei para casa e às 05h:00m as contrações já estavam praticamente insuportáveis, eram muito fortes mesmo e voltamos para  a maternidade. O médico me examinou, fez exame de toque e me disse que eu estava com 08 cm de dilatação. Fui encaminhada para  a sala de parto. Sentia dores muito fortes e o que me ajudava na diminuição das mesmas era ficar de quatro. Quando me coloquei em tal posição  a enfermeira me disse que eu não poderia ficar daquele jeito e que era para ficar deitada de costas ou de lado! Como assim?!

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Isso porque tal maternidade é considerada um local de apoio a humanização do parto. Que eu saiba, na humanização podemos escolher a posição que mais nos agrade! Não vi nenhuma bola, não recebi nenhuma ajuda, auxílio, apoio da equipe que ali se encontrava. Nenhuma vez me forneceram apoio psicológico ou físico. Não me perguntaram se eu queria ir para o chuveiro ou para uma banheira que eu sabia que ali tinha. Me deixaram sozinha na sala de parto com contrações fortíssimas!! Sim, sozinha! Ao contrário de apoio, o que encontrei foi desrespeito e violência obstétrica. Eles me humilharam, me rebaixaram. Me trataram com desdém.

Quando pedi para  a enfermeira me ajudar a mudar de posição, ela disse que era para eu mudar sozinha! Eu pedi várias vezes por auxílio, para me ajudar a controlar a dor e ela disse que NÃO iria me ajudar, me tratava de forma grosseira!!! Quando ela viu o médico perguntou a ele se eu era  a tal moça que insistiu para voltar para casa. Eles começaram a me massacrar pela minha escolha. Peraí, estava tudo bem, a Lorena estava nascendo, não era melhor eu já chegar ali pronta para parir? Era só eles me ajudarem agora! Mas que nada! Aproveitaram a situação mais sensível da qual me encontrava, para me jogar na cara as minhas escolhas. Aproveitaram que estava sem acompanhante para me maltratar e fazer o que bem quisessem!

Meu marido não pode entrar na sala de parto porque meu filho estava junto e não é permitida a entrada de crianças. Também não é permitido criança ficar na recepção sem um responsável. Resumindo: meu marido teve que ficar com o Luka na recepção! Depois de todos os maus-tratos que sofri, o médico insistia em abrir minhas pernas bem quando as contrações estavam insuportáveis, para querer estourar a bolsa que segundo ele ainda não havia sido. Ele me ameaçou fazer uma cesárea caso eu voltasse a fechar as pernas. Mas eu fechava só quando sentia dor. Era uma forma de alívio, eu me contraía. Foi horrível!!!! Não desejo isso para ninguém!!!! Foi então que ele me disse que teria sim que me levar para uma cesárea, porque Lorena estava em sofrimento. Até hoje não sei como ele chegou a essa conclusão!  Lorena nasceu no dia 03, às 06h:00m. Veio ao nosso mundo linda e ruiva, como havia imaginado, desejado e visualizado durante uma meditação. Meu Deus, ela havia nascido exatamente como pensei! Mas não da forma como queria! Não recebi nenhuma forma de assistência humanizada.

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Depois de um mês, já com Lorena em casa, recebi uma ligação da maternidade, de uma funcionária, perguntando sobre meu estado de saúde e de Lorena. Respondi que estávamos bem.  Aproveitei a circunstância e relatei toda a violência sofrida. Ela escutou atentamente; mostrou-se bastante interessada e preocupada. Incentivou-me a fazer uma denúncia do fato, para a ouvidoria da maternidade. Me passou um e-mail, mas confesso que não consegui fazer tal denúncia. É a primeira vez que consigo escrever o que me ocorreu, como já falei para vocês.  Foi muito triste gente, saber que uma equipe que deveria me auxiliar, na verdade me violentou.

O pior que isso ocorre todos os dias, com milhares de mulheres. Por isso além da informação, é importante não abrir mão do acompanhante. Porque este, faz pressão na equipe e ainda nos fornece apoio e segurança. Para quem tem dúvidas ainda sobre esse assunto tão sério e abrangente, que envolve a humanização ao parto,  e sobre o que é de fato a violência obstétrica, vai acontecer um evento lindo on line, no início de Novembro; ele é gratuito com diversas palestras sobre o tema. É o CONAHPARTO. Vale muito a pena, pois quando estamos informadas podemos evitar que tais violências continuem acontecendo. Para participar deste congresso sobre a humanização do parto você pode CLICAR AQUI. Espero que esse meu relato possa ajudar muitas gestantes, para que isso pare de acontecer ou que possa ao menos diminuir. Que possa servir de alerta, para evitar tamanho desrespeito.

Gravei um vídeo, para o canal do You Tube, falando sobre violência obstétrica e relatando um pouco do que aconteceu comigo. Você pode assistir o vídeo abaixo.

Beijos maternos, Liri ♥